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O segredo
por trás das sanções:
Como os
EUA destruíram deliberadamente o sistema
de abastecimento de água
do Iraque
Thomas J. Nagy [*]
resistir.info/ 14/06/05
Nos últimos
dois anos, encontrei documentos da Defense Intelligence Agency
provando para além de quaisquer dúvidas, que o governo dos EUA, em
contravenção com a Convenção de Genebra, utilizou
intencionalmente sanções contra o Iraque para degradar o
abastecimento de água nesse país após a Guerra do Golfo. Os
Estados Unidos sabiam qual o preço que os civis iraquianos, na sua
maioria crianças, iriam pagar, mas no entanto avançaram em frente.
O documento principal, "Iraq Water Treatment
Vulnerabilities" (Vulnerabilidades do tratamento da água no
Iraque), tem a data de 22 de Janeiro de 1991. Esclarece de que modo
as sanções vão impedir o Iraque de fornecer água potável aos
seus cidadãos.
"O Iraque depende da importação de equipamento
especializado e de alguns produtos químicos para purificar o
abastecimento de água, na sua maioria contendo grande quantidade de
minerais e muitas vezes salobra e quase salgada", diz–se no
documento. "Sem recursos internos de sobressalentes e de alguns
produtos químicos essenciais para o tratamento da água, o Iraque
terá que tentar tornear as sanções dos Estados Unidos para
importar esses bens essenciais. Se não conseguir esses
fornecimentos, haverá uma escassez de água potável para a maior
parte da população. Isso poderá resultar numa situação de
aumento de doenças, ou até mesmo numa epidemia".
O documento entra em pormenores altamente técnicos
sobre as fontes e qualidade do abastecimento de água no Iraque. A
qualidade da água sem tratamento "é geralmente fraca", e
beber dessa água "pode provocar diarreia", diz–se no
documento. Afirma que os rios do Iraque "contêm matérias biológicas,
poluidoras e estão carregadas de bactérias. Se a água não for
purificada com cloro, podem ocorrer epidemias de doenças tais como
a cólera, a hepatite e o tifo".
O documento nota que a importação de cloro "foi
embargada" pelas sanções. "Informações recentes
indicam que o abastecimento de cloro está numa situação
criticamente baixa".
Os alimentos e os medicamentos também serão
afectados, regista o documento. "As instalações de confecção
de alimentos, as electrónicas e, em especial, as farmacêuticas
exigem água extremamente pura livre de contaminantes biológicos",
afirma.
O documento enumera as possíveis contra–medidas
iraquianas para conseguir água potável, apesar das sanções:
"É de admitir que o Iraque transporte água dos
reservatórios das montanhas para as áreas urbanas, por camião.
Mas a possibilidade de assim se conseguirem quantidades
significativas é muito limitada", afirma–se no documento.
"A quantidade de tubagem disponível e a falta de estações de
bombagem limita a instalação de condutas até esses reservatórios.
Para além disso, sem a purificação com cloro, a água continuará
a conter poluentes biológicos. Alguns iraquianos abastados podem
obter o seu próprio abastecimento minimamente adequado de água de
boa qualidade a partir de fontes iraquianas do nordeste. Depois de
fervida, a água pode ser consumida com segurança. Os iraquianos
mais pobres e as indústrias que exigem grandes quantidades de água
pura não terão possibilidade de satisfazer as suas
necessidades".
O documento também põe de lado a possibilidade de os
iraquianos utilizarem a água da chuva. "A chuva cai no Iraque
durante o inverno e a primavera, mas cai principalmente nas
montanhas de nordeste", refere. "Por vezes caem chuvas
esporádicas, às vezes fortes, nas planícies do sul. Mas o Iraque
não pode confiar na chuva para fornecer água pura adequada".
Em alternativa, "o Iraque pode tentar convencer as
Nações Unidas ou países isolados a excluir das sanções os
fornecimentos de tratamento da água, por razões humanitárias",
diz–se no documento. "Também tentará provavelmente arranjar
os fornecimentos por intermédio de alguns países amigos. Se essas
tentativas falharem, as alternativas iraquianas não serão
suficientes para as suas necessidades nacionais".
Numa linguagem fria, o documento enumera o que está em
causa: "O Iraque vai sofrer uma escassez cada vez maior de água
pura por causa da falta dos produtos químicos necessários e das
membranas de dessalinização. Verificar–se–á a probabilidade
de ocorrência de doenças, incluindo possíveis epidemias, a não
ser que a população tenha o cuidado de ferver a água".
O documento apresenta um calendário para a destruição
do abastecimento de água do Iraque. "A capacidade global de
tratamento da água no Iraque vai sofrer uma queda lenta, e não uma
paragem brusca", diz–se. "Embora o Iraque já esteja a
sofrer uma perda da capacidade de tratamento da água, demorará
provavelmente pelo menos seis meses (até Junho de 1991) até o
sistema ficar completamente degradado".
Este documento, que fora parcialmente desclassificado
mas não publicado até 1995, pode ser consultado no sítio web do
Pentágono em www.gulflink.osd.mil . (Encontrei–o no outono
passado. Mas as agências noticiosas não lhe deram grande atenção.
Os únicos repórteres que conheço que escreveram notícias
extensas sobre o mesmo foram Felicity Arbuthnot no Sunday Herald da
Escócia, que revelou a história, e Charlie Reese do Orlando
Sentinel, que escreveu uma notícia posterior.
Há pouco tempo, deparei–me com outros documentos da
DIA que confirmam a responsabilidade do Pentágono na degradação
do abastecimento de água no Iraque. Estes documentos ainda não
foram publicitados até hoje.
O primeiro deste grupo chama–se "Disease
Information" (Informações sobre doenças), e também tem data
de 22 de Janeiro de 1991. No topo, diz: "Assunto: Efeitos dos
bombardeamentos sobre a ocorrência de doenças em Bagdad". A
análise é crua: "O aumento de casos de doenças deve ser
provocado pela degradação da medicina preventiva normal, da
recolha do lixo, da purificação e distribuição da água, da
electricidade, e da redução da capacidade de controlar os surtos
de doenças. Todas as áreas urbanas no Iraque que sofreram danos
nas infra–estruturas terão problemas semelhantes".
O documento prossegue enumerando os surtos prováveis.
Menciona "diarreia aguda" produzida por bactérias como a
E.coli, a shigela e a salmonela, ou por protozoários como a
giardia, que vão afectar "principalmente as crianças",
ou por rotavirus, que também afectarão "principalmente as
crianças", uma frase que é metida entre parênteses. E cita a
possibilidade de surtos de tifo e cólera.
O documento chama a atenção para que o governo
iraquiano pode "responsabilizar os Estados Unidos pelos
problemas de saúde pública provocados pelo conflito militar".
O segundo documento da DIA, "Disease Outbreaks in
Iraq" (Surto de doenças no Iraque), tem data de 21 de
Fevereiro de 1990, mas o ano é nitidamente uma gralha tipográfica
e deve ser 1991. Afirma: "As condições favorecem surtos de
doenças contagiosas, em especial nas principais áreas urbanas
afectadas pelos bombardeamentos da coligação". Acrescenta:
"A prevalência de doenças infecciosas nas principais áreas
urbanas iraquianas alvejadas pelos bombardeamentos da coligação
(Bagdad, Basrah) aumentou sem qualquer dúvida desde o início da
Tempestade do Deserto… Os actuais problemas de saúde pública são
atribuíveis à redução da medicina preventiva normal, da recolha
de lixo, da purificação e distribuição da água, da
electricidade e à redução da capacidade de controlar os surtos de
doenças".
Este documento enumera as "doenças mais prováveis
durante os próximos sessenta a noventa dias (por ordem
descendente): diarreias (principalmente crianças); doenças
respiratórias agudas (constipações e gripes); tifo, hepatite A
(principalmente crianças); sarampo, difteria e tosse convulsa
(principalmente crianças); meningites, incluindo a meningocócica
(principalmente crianças); cólera (possível, mas menos provável)".
Tal como no documento anterior, também este alerta
para que o governo iraquiano pode "utilizar o aumento de doenças
endémicas como propaganda".
O terceiro documento desta série, "Medical
Problems in Iraq," (Problemas médicos no Iraque) tem data de
15 de Março de 1991. Diz assim: "As doenças contagiosas em
Bagdad estão mais disseminadas do que é habitualmente observado
nesta época do ano e estão relacionadas com as deficientes condições
sanitárias (abastecimento de água contaminada e deficiente
escoamento de esgotos) em consequência da guerra. De acordo com um
relatório da UNICEF/Organização Mundial de Saúde, a quantidade
de água potável é inferior a 5% do abastecimento primitivo, não
há instalações de tratamento de água e de esgotos, e os casos
reportados de diarreia são quatro vezes superiores aos níveis
normais. Além disso, as infecções respiratórias estão a
aumentar. As crianças são as principais afectadas por estas doenças".
Talvez para pôr água na fervura, o documento diz:
"Há sinais de que a situação está a melhorar e que a população
está à altura das condições degradadas". Mas acrescenta:
"As condições em Bagdad mantêm–se favoráveis à disseminação
de surtos de doenças contagiosas".
O quarto documento, "Status of Disease at Refugee
Camps" (Situação das doenças nos campos de refugiados), tem
data de Maio de 1991. O sumário diz, "A cólera e o sarampo
apareceram em campos de refugiados. Seguir–se–ão mais doenças
infecciosas dado o deficiente tratamento da água e a falta de condições
sanitárias".
A razão para estes surtos é de novo afirmada
claramente. "As principais causas das doenças infecciosas,
principalmente a diarreia, a disenteria e os problemas respiratórios
superiores, são as deficientes condições sanitárias e a água não
tratada. Estas doenças afectam principalmente os velhos e as crianças
pequenas".
O quinto documento, "Health Conditions in Iraq,
June 1991," (Condições de saúde no Iraque, Junho de 1991)
ainda está censurado mais fortemente. Tudo o que consegui verificar
foi que a DIA enviou uma fonte "para verificar as condições
de saúde e determinar as necessidades médicas mais críticas do
Iraque. A fonte observou que o sistema médico iraquiano se
encontrava numa desorganização considerável, as instalações médicas
tinham sido pilhadas profundamente e havia uma escassez crítica de
quase todos os medicamentos".
Num campo de refugiados, diz o documento, "pelo
menos 80 por cento da população" sofre de diarreia. Neste
mesmo campo, chamado Cukurca, "irromperam surtos de cólera,
hepatite tipo B e sarampo".
Observou–se no Iraque, "pela primeira vez",
a doença da deficiência de proteínas, kwashiorkor, acrescenta o
documento. "A gastroenterite estava a matar crianças… No
sul, 80 por cento dos mortos eram crianças (com excepção do campo
Al Amarah, em que as crianças eram 60 por cento dos mortos)".
O documento final é "Iraq: Assessment of Current
Health Threats and Capabilities" (Iraque: Levantamento das
actuais ameaças à saúde e capacidades), e tem a data de 15 de
Novembro de 1991. Este último documento tem um tom diferente de
controlo de danos. Começa assim: "A reposição dos serviços
de saúde pública no Iraque e a escassez do principal material médico
continuam a ser as preocupações internacionais dominantes. Estas
duas questões parece estarem a ser exploradas por Saddam Hussein
numa tentativa de manter a opinião pública solidamente contra os
EUA e os seus aliados da coligação e de desviar a responsabilidade
directa do governo iraquiano".
Minimiza a extensão dos danos. "Embora a actual
incidência de infecções por todo o Iraque seja mais elevada do
que antes da Guerra do Golfo, não se encontra aos níveis catastróficos
que alguns previram. O regime iraquiano vai continuar a explorar os
dados da incidência das doenças para seu próprio benefício político".
E atira as culpas redondamente para Saddam Hussein.
"A escassez dos abastecimentos médicos no Iraque resulta do açambarcamento
feito pelo governo central, da distribuição selectiva e da exploração
dos recursos médicos da ajuda internacional". Acrescenta:
"A retoma dos programas de saúde pública… depende
inteiramente do governo iraquiano".
Como estes documentos ilustram, os Estados Unidos
sabiam perfeitamente que as sanções tinham a capacidade de
devastar o sistema de tratamento da água no Iraque. Sabiam quais
seriam as consequências: aumento dos surtos de doenças e alta taxa
de mortalidade infantil. Mas estavam mais preocupados com o pesadelo
das relações públicas para Washington do que com o verdadeiro
pesadelo que as sanções iam criar aos iraquianos inocentes.
A Convenção de Genebra é perfeitamente clara. Num
protocolo de 1979, relativo à "protecção de vítimas em
conflitos armados internacionais", o Artigo 54 afirma:
"É proibido atacar, destruir, retirar, ou
inutilizar objectos indispensáveis à sobrevivência da população
civil, tais como géneros alimentícios, colheitas, gado, instalações
ou fornecimento de água potável e obras de irrigação, com o
objectivo específico de lhes retirar o seu valor de subsistência
para a população civil ou para a parte contrária, qualquer que
seja o motivo, seja para matar à fome civis, seja para os obrigar a
fugir, seja por qualquer outro motivo".
Mas foi precisamente o que o governo americano fez, com
a intenção premeditada de destruição. "Destruiu, removeu,
ou inutilizou as instalações e o fornecimento de água potável"
no Iraque. As sanções [da ONU], impostas durante uma década
principalmente por insistência dos Estados Unidos, constituem uma
violação da Convenção de Genebra. Representam uma tentativa
sistemática, segundo as próprias palavras da DIA, para
"degradar totalmente" os recursos de água do Iraque.
Numa audiência da Câmara em 7 de Junho, a
representante Cynthia McKinney, Democrata da Geórgia,
referindo–se ao documento "Iraq Water Treatment
Vulnerabilities" disse: "O ataque ao abastecimento de água
potável pública iraquiana atinge flagrantemente os civis e é uma
violação da Convenção de Genebra e das leis fundamentais das nações
civilizadas".
Durante a década passada, Washington agravou a conta
continuando a recusar a aprovação ao Iraque para importar os
poucos produtos químicos e os itens de equipamento necessários
para tratamento do seu abastecimento de água.
No verão passado, o representante Tony Hall, um
Democrata de Ohio, escreveu à então secretária de Estado
Madeleine Albright "sobre os profundos efeitos da crescente
deterioração do abastecimento de água e dos sistemas sanitários
do Iraque sobre a saúde das crianças". Hall escreveu, "O
principal responsável pela morte de crianças com menos de cinco
anos – as diarreias – atingiu proporções epidémicas, e mata
hoje quatro vezes mais do que em 1990… As restrições aos
contratos no sector da água e sanitário são a principal razão
para o aumento da doença e da morte. De dezoito contratos, só um não
foi vetado pelo governo dos EUA. Os contratos são para produtos químicos
de purificação, produtos de cloração, bombas de doseamento de
produtos químicos, reservatórios de água e outros equipamentos…
Peço–lhe que pese bem as suas medidas contra a doença e a morte
que são o resultado inevitável de não haver água potável e níveis
mínimos de saneamento".
Há mais de dez anos que os Estados Unidos têm
prosseguido deliberadamente uma política de destruição do sistema
de tratamento de água no Iraque, sabendo muito bem qual o seu custo
em vidas iraquianas. As Nações Unidas avaliaram em mais de 500 mil
as crianças iraquianas mortas em consequência das sanções, e
continuam a morrer todos os meses mais de 5 000 crianças iraquianas
pela mesma razão.
Ninguém pode dizer que os Estados Unidos não sabiam o
que estavam a fazer.
Veja com os seus próprios
olhos
Todos os documentos
da DIA mencionados neste artigo encontram–se no sítio Gulflink do
Departamento de Defesa.
Para ler ou imprimir os documentos:
1– entrar em www.gulflink.osd.mil
2– clicar em "Declassified Documents" do
lado esquerdo da página inicial
3– a página seguinte chama–se "Browse
Recently Declassified Documents"
4– clicar em "search" por baixo de
"Declassifed Documents" do lado esquerdo dessa página
5– a página seguinte chama–se "Search
Recently Declassified Documents"
6– escreva expressões de pesquisa tais como
"disease information effects of bombing"
7– clicar no botão de pesquisa
8– a página seguinte chama–se "Data
Sources"
9– clicar em DIA
10– clicar num dos títulos
Não é o sítio da Internet mais fácil, nem o mais
bem organizado, mas acho a equipa do Gulflink prestativa e responsável.
[*] Professor na School of Business and Public
Management na Universidade George Washington.
O original encontra–se em
http://orbstandard.com/News/Nagy/ . Tradução de Margarida Ferreira.
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